Quarta-feira, Novembro 18, 2009

por causa de um amor?

Meu coração bateu tão forte que achei que fosse saltar pela boca.
Cerrei de tal modo os dentes que acho que o engoli.

Banho frio




O despertador tocou às 6h, como não é de gosto e costume. Ainda mais quando se sabe que vai ser preciso pegar a estrada. Acordei num salto para evitar o risco de estender os cinco minutinhos a mais de sono e fazer-me esperar. Quando liguei o chuveiro, ouvi o silêncio que se estabelece quando a resistência queima. E jesus poderoso como ainda era cedo para tanto sobreaviso. Tomei um banho gelado, com o agravante de ter que lavar o cabelo, e ia me penitenciando muito enquanto a água escorria friamente pela nuca. Como eu gostaria de ter mais desenvoltura com este tipo de providência cotidiana. Mas comigo sobra coragem para morar sozinha em dia de trovoada e aguentar saudade da família, mas falta jeito para trocar o gás, furar paredes, trocar lâmpadas e, mais ainda, a resistência do chuveiro.
No final do dia, já na rodoviária para pegar o rumo de casa, contava os minutos para entrar no ônibus e tirar um cochilo (de três horas) merecido.
Logo que comprei a passagem, uma mulher passou por mim, sorriu e me cumprimentou. Eu retribuí o que pareceu pura gentileza e tive um pensamento ligeiro de que, independente das circunstâncias, algumas pessoas sempre nos transmitem paz.
Para minha surpresa, ela era minha companheira de viagem. Mesmo banco e tudo. Com os pés equilibrava algumas sacolas de supermercado e com as mãos, gesticulava alguns momentos de sua vida que de um modo peculiar me contava.
Ela tinha olhos muito azuis. Uma voz calma e pausada de quem sabe com antecedência quais palavras usar. E a cada nova história, silenciosamente me surpreendia mais com a sabedoria e simplicidade daquela mulher. Era um jeito bonito de me explicar o barulho que o pai fazia quando ela chegava com os filhos ainda pequenos. “Ele corria abrir o portão. Pegava as crianças no colo e rodopiava.” Para depois derramar uma compreensão ardida ao confidenciar que foi na primeira visita à casa dos pais, no momento exato de abrir o portão, que ela não recebendo aquela festa, entendeu que ele havia morrido. E foi me contando com maestria como a vida ia lhe tocando. Uma demonstração de carinho em contar-me que a filha vai prestar concurso público e pode conquistar um salário de dois mil. E de me explicar que estava voltando de uma consulta médica. “Meu filho quer emagrecer porque já está de olho nas namoradas”. Ela continou gesticulando e despejando as coisas da vida sem pressa, com um toque de realidade e compreensão.
Eu gosto de ouvir as pessoas me contarem sobre suas escolhas enquanto chacoalham os farelos de dúvidas que sempre restam em cada decisão. E gosto de perceber a intenção que não é dita. O amor que não é declarado como bandeira, mas que ilumina aquele que o carrega. Escuto de um jeito pra nunca mais esquecer.
Depois de falar bastante, perguntou qual era a minha profissão. E quando eu respondi, ela quis saber sobre o que eu escrevia, como era viver da escrita. Pensei: pessoas como você, me inspiram. Viver da escrita é alimentar-se dessas histórias. Por causa da minha timidez, lhe respondi apenas que era um trabalho que necessitava dedicação como qualquer outro. Ela disse que gostaria de ter a oportunidade de ler alguma coisa escrita por mim. Tirei da bolsa umas folhas de jornal e lhe entreguei. Antes de descer, sentenciou: ganhei o dia conhecendo uma jornalista. Cutucou o filho para mostrar-lhe o jornal. Achei até engraçado, mas foi espontâneo e sincero como tudo o que havia me contado antes.
Da conversa que tivemos, discordo apenas de um detalhe: a sorte foi minha.
Não cheguei em tempo de pedir ao zelador para trocar a resistência.
Mas quem se importa?

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Seria bom ensaiar um ciumezinho barato. Qualquer rodada que me vestisse de mulherzinha cheia de motivos. Mas a vida é como é e está sendo, inclusive, neste momento. Não tenho vontade de jogar para ganhar, apenas, de ser como eu sou e a muito custo aprendi que é melhor ser: usar da verdade para respirar.

Sábado, Novembro 14, 2009

dos clarões de sexta

"não se afobe não que nada é pra já"

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Linda da Dinda




Terça-feira, Novembro 10, 2009

O fio das missangas



Histórias breves, em que se condensam as infinitas vidas que podem se abrigar em um ser humano... São 29 contos trabalhados como em filigrana e unidos como missangas em redor de um fio, que é a escrita de um consagrado fabricador de ilusões.
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Considero de uma delicadeza e sensibilidade impressionantes. É por isso que recomendo, como quem faz questão de que seja provado.
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“A missanga, todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo... Mia Couto”

Domingo, Novembro 08, 2009

Fingir que ela não cutuca é o maior dos enganos




Deixei a lentilha cozinhando, com bastante louro. Adoro saber que tem panela no fogão espalhando o sabor pela casa, ainda mais em dias como hoje, que o vento entra sem cerimônia pela porta da cozinha.
Acabo de acordar do cochilo revigorante das 19h depois de assistir Friends pela centésima vez. Já organizei a rotina da semana na cabeça, já ouvi boa parte da discografia do Neil Young, troquei confidências comigo e promessas que tentarei cumprir com louvor. Como dar duas voltas de bicicleta na redenção (se não chover), por exemplo.
Sei que tudo é espera, é por isso que o pé fica inquieto, como se tivesse vontade própria. Por causa desta espera, também, pinto e borro as unhas umas vinte vezes, até pegar mais algodão e tirar tudo.
Nestas horas impossíveis, gosto de abrir uma página de livro por acaso. Como num truque de adivinhação, escolhi um a dedo. Na página 20, do livro Novelas nada exemplares, do Dalton Trevisan, pude ler o seguinte:
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- Baixe o rosto. Te deixo um beijo.
O rosto da lua sobre os telhados.
- É o beijo do adeus.
- ...
- O último?
Levou a mão ao peito assim doesse.
- Não sabe?
- Não, João. Não é.

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Parei com a leitura. Tem modo da lentilha não secar todinha na panela deste jeito?
Não adianta fazer o que eu disse a pouco, em conselho para uma amiga: aprenda novas receitas, comece a bordar almofadas, pinte o bidê do quarto, comece a fazer yoga, dança de salão, concentre-se mais no trabalho.
Tudo engano. O jeito é driblar a ansiedade no osso do peito.
Fingir que ela não cutuca é o maior dos enganos.
Preciso me distrair dos últimos dias. Mas sei que não consigo prestar atenção na Gabi entrevistando o Vice Presidente, por exemplo. Já desliguei a lentilha. Então, vou terminar o poste com O Jogo da Amarelinha, do Cortazar. Faz dias que eu quero ler e saborear, de olhos fechados, cada palavra.
E seja o que Deus quiser.
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Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.


Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009



Sinto como se a roupa ficasse larga e apertada ao mesmo tempo, sem possibilidade de trocar nenhuma peça e tendo que suportar um dia inteiro assim: o elástico da calcinha fazendo um vinco perto da virilha e a alça da blusa escorregando até o cotovelo.
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Sobra, advém, comicha, alivia, ainda, o instante em que olhei fixamente e tive todos os medos, calafrios, prazeres e sonhos dentro de mim, escorrendo um pouco para fora do corpo...

Sábado, Outubro 31, 2009

Eu direi o que o sorriso no meu rosto significa

Domingo, Outubro 25, 2009

Vó Narcisa

Ela nunca pintou as unhas, assim como também não escondia a predileção pela gente. Digo a gente, dando nome às quatro filhas do seu primeiro filho.
É por isso que ela sempre nos visitou muito. Da infância, gosto de lembrar quando íamos de fusca visitá-la. O pai e a mãe na frente e nós quatro no banco de trás. A gente cantava a viagem inteira.
Depois, quando os namorados começaram a bater lá em casa e às vezes se ensaiavam ficar para jantar, ela sempre era a primeira a fazer um interrogatório. Queria saber de que família era e como a gente tinha se conhecido. Depois de ouvir nossas lamúrias e alegrias, sentenciava: o que é pra ser será. E isso sempre nos causou graça e apaziguou.
Ainda mais porque ela sempre pode falar com propriedade. Era apaixonada pelo meu avô. Dedicou-lhe um amor bonito. Destes que ninguém ousa duvidar. Falecido há 24 anos, dele lembro bem pouco. Mais de ouvir falar. Dela, não vou me esquecer nunca. Este amor que ela tinha por ele lhe protege até os dias de hoje. É por isso que, na véspera de completar 90 anos, embora assistida, ainda mora na mesma casa de madeira, na Serra. Lá, ela está protegida. É o que sempre nos diz, quando tentamos trazê-la mais para perto.
Minha avó é uma mulher forte e conciliadora. E tem uma gargalhada bastante peculiar. Dessas que a gente ouve e começa a rir junto.
Ela benze de arca caída e tem teorias curiosas. No dia do casamento, enquanto meu avô foi levar um convidada para casa, ela tirou o vestido e lavou toda a louça da festa. Olhei espantada e ela me disse que eles confiavam um no outro e que era essa a base para tudo na vida. Tinha uns nove anos quando ouvi esta história e na ingenuidade de menina, só pensei que os casamentos de “antigamente” eram muito sem graça. Acho que hoje entendo o que ela quis me dizer.
Na última vez que a visitei, a vó me pegou pela mão e levou até o quarto. Quis me mostrar uma foto de quando eu tinha uns 20 anos. Foi presente meu, logo que vim morar em Porto Alegre, para que ela sempre pudesse me ver sorrindo.
Sinto muita saudade. E estou com o meu coração partido. Soube que ela foi internada hoje com pressão alta. Sou bem egoísta em pedir, mas gostaria que ela me esperasse chegar.
Pra falar bem a verdade, queria estar chegando agora lá na Serra, de surpresa. Ouvir o barulho do portão batendo e avistá-la perto do fogão à lenha. Gastar um dia inteiro ouvindo e contando histórias e depois ficar para o café com leite e rosca de polvilho. O melhor do mundo.
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Quanto tempo fica para trás enquanto a gente está concentrada em olhar pra frente.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

A gente corre, querendo chegar quando? Onde? Por quê?
Hoje eu parei com vontade de ter uma resposta. E me perguntei de um modo nada corriqueiro. Investigando bem os motivos, mas muito atenta a intuição (que não falha). Foi uma conversa boa. E apesar de ter sido só comigo, não foi nada solitária.
Como faz bem aproveitar a paz deste intervalo de vez em quando. A inclinação do sol vai marcando outras sombras e por afinidade ou gosto, a gente escolhe que vai seguir. Às vezes do mesmo jeito. Às vezes para outro lado ou com menos bagagem.
E leva junto um vento de esperança que vai semeando...
E o desejo é tão fecundo que nada morre. Nada morre...
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Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Quero te lembrar do meu lado mais feio. Quero ver a tua cara quando o meu medo ficar latejando em ti, na dor que tu sentes na coluna.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Arame tenso sob o sol...




Não tinha levantado da cama e já sabia que os hormônios, alterados pela TPM, ensaiavam uma vontade de leite condensado e exigiam prudência ao falar. Que alguns prazos haviam estourado e pediam uma encenação de equilíbrio. Eu saltei antes das 8h, com uma disposição antagônica para o meu ritmo matutino. Fiz chá de gengibre pra compensar a falta de suco e para espantar a dor de garganta, conseqüência do banho de chuva de ontem.
Antes do meio-dia, já tinha decidido passar o feriado com a família em Santa Catarina e recebido uma música, sem título, nem texto, por e-mail. E que eu só ouviria quando tudo o mais pudesse ficar em silêncio, pois sabia que para o bem ou para o mal, choraria quando a ouvisse. Abre parênteses e põe uma reticência que não é sobre isso que eu quero conversar agora.
Quero dizer que hoje é dia 07 e estamos aqui.
A minha emoção, e certamente a sua, é diferente da força que a Nilza, faxineira da agência, dispensou sobre o pano umedecido com lustra-móveis ao me dizer que seu pai havia morrido. Diferente também do tom de uma ex-colega de trabalho, agora amiga na vida, que enviou mensagem para avisar que o neto havia nascido com saúde. Que também é diferente do amigo que disse orgulhoso ter tido um poema selecionado para um livro.
Sei que para o casal que se despedia com um beijo numa parada de ônibus na Independência a quarta-feira escorregava macia. Embora muitas cortinas devam estar separando outras tantas realidades que tocadas pelo dia de hoje irão conhecer novas rotinas. Irão se desesperar e ao seu tempo, acostumar-se com o novo timbre de voz?
Vão desejar as chegadas, colocando um prato a mais na mesa. Irão precisar apoiar os olhos naqueles que lhe são caros na hora derradeira da despedida. Da conquista engatilhada. Da confissão de dias felizes. Do amor engasgado.
É que algumas vezes vamos dizer sim e por isso andaremos quilômetros para o sul. Noutras vamos dizer não e todos os lagos poderão congelar à nossa volta (talvez servindo de passagem).
E provavelmente ainda estaremos em 2009, não teremos pagado o IPTU e nem saberemos o que comprar para os nossos sobrinhos no Natal. Mas vamos desejar, gritando, calando, reclamando, sonhando, que a vida nos seja boa. Que ela valha a pena e se estenda em compreensão.
Assim, como a que meu tio me respingou ao explicar um episódio da sua história e concluir que a vida não perdoa. Eu quase me afoguei com o café que tranquilamente bebia para acatar em aceno. Mas já que é assim, que ela seja a medida daquilo que esperamos dela. E sobre a melodia... estendo para vocês, com um desejo de que a coragem para a vida não falte nunca.
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(Varal)
Arame tenso sob o sol
Quem vê amor ali?
Quarando, secando, esticado sob o sol
Pronto pra molhar de amor
Arame espesso risca o céu
Quem vê a dor ali?
Rasgando, rompendo, atravessando o véu
Pra descansar da dor...

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Deixa eu te contar que eu tô me sentindo esquisita. Amanheci assim e já descambei até a comer sorvete do pote. Qualquer coisa que aponte mais pare este lado: daqui a novos cinco anos, estaremos nós, também, tão ridículos a tomar chá e nos desejar de forma infantil para nunca além das palavras?

Zamba para no morrir

Eu sempre pensei que não faltaria tempo para assistir um show dela.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

eu prefiro a entrelinha, sem nem sempre deixar isso bem evidente

Se for pra escolher entre o meio termo, entre as matizes e os sabores só para ensaiar uma entrelinha, confesso que prefiro a fumaça bem antes das coisas flocadas.
Vou dizendo assim como quem traduz, entre o primeiro erro, fico com o segundo.
Mas, ontem, porque eu tinha trabalhado 24 horas consecutivas e usado tudo o que a cabeça podia pra dar conta do prazo e do recado, escolhi por um chocolate.
Bem flocado. Foi escolha de momento. Destas que a gente se demora um pouco para acatar, mas sabe que ainda assim é por impulso.
Como o cansaço gritava, dormi com o cabelo ainda molhado. Com a TV ligada. Com o chocolate só um pouco mordido. Com outro tanto por comer.
Agora. Embora aliviada do trabalho de virada, mas que eu já cansei de novo, por bem outros motivos, sei, sem nem precisar olhar, que o chocolate continua provocando uma mordida na mesa de cabeceira. É por saber e não me importar que eu digo:
Mesmo que eu encontre a melhor forma de dizer o contrário.
Eu queria. Queria mesmo. Mas talvez não fosse um querer de verdade.
Com essa coisa dura, nada flocada que a verdade é.
Querer só um pouco talvez seja, ainda, ou para sempre, a melhor forma de não querer.
(e não precisar se explicar é uma benção. Um privilégio, ou recompensa para quem não tem o calor de outro pé quando setembro parece com agosto. Tudo. Mais ou menos assim. Tão evidente e tão confuso).
Boa noite.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

corta cabelo, corta cabelo, corta cabelo




A gente passou no brechó e foi tomar cerveja. Porque a vida é besta de tão boa vez por outra. Mas entre o brechó e a cerveja, decidimos cortar nosso próprio cabelo.
Cada uma inventou um "modelo" e só descobrimos que a gente tinha "compartilhado da mesma iniciativa" na hora da cerveja.
E, como na hora da cerveja tudo fica mais ameno, parecia que tinha sido uma boa coisa.
Agora.... o jeito é deixar a vida se encarregar....
:)

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Da sinceridade (sem recheio)

Não podemos anular o que foi vivido. Ficará uma lacuna. E por isso uma nova necessidade. Como se revogar fosse alimento. Numa combinação frustrada de quem não come, não cresce.
Empurro o prato com fastio e sei que é igualmente perigoso. É preciso coragem para olhar pra trás ou para dentro querendo enxergar apenas verdade. Poderia inventar uma vida com gosto de pavê de chuchu. E justificar a minha covardia. Fazer certo pelo prazer de apontar o erro é igualmente errar. Assim como reconhecer para redimir-se. Não cabe mais dizer, por exemplo, que não merecia o dez em educação física. E que gostaria de ter conversado mais.
Mesmo que me embuche regularmente de ausências, não gosto de dieta. Vou misturando os temperos sem precisar amaldiçoar. Mesmo quando tenho as duas mãos cheinhas de motivo. Porque sei que a suavidade na escolha do cardápio não condena.
Escolho afastar-me para não haver confronto. E imagino que perco com isso muita briga boa. Mas quando nos damos por conta, está na hora da sobremesa.
Talvez o maior castigo. Esquecer da fome, por causa da gula.
Embora seja iniciante no preparo dos banquetes, sei que já embuchei muita gente. E foi de fome. Demoro demais no preparo a ponto da pessoa se nausear. Vou adiando enquanto posso. Mais pra frente, posso querer implorar pelo confronto e talvez seja tarde. A gente só sabe quando chega a hora. Não dá pra anteceder o tempo do fastio.
Sei dos moderadores de apetite e faço uso quando convém. Conto com a sorte dos sonrisais. E por gosto, apenas em escolher não obrigar ninguém a dar as 30 mastigadas. E, mesmo sabendo que quase tudo que passa na goela azeda, repito que talvez seja besteira vomitar para corrigir.
Encontrei na renúncia o meu jeito de perdoar.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Qual é o título?

Com cheiro de tinta fresca, mas sem o título.
Faço questão que seja assim?
Ou, se você quiser, pode brincar de inventar um título para este texto.

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Quando cai o sol das cinco não tem modo da gente não chacoalhar. Eu ando com essa ideia na cabeça não faz muito, mas já é o bastante pra faltar sossego. Se eu descuido, escapa todo o leite sobre o fogão. Com o susto, parece que me acordo de novo, mas daí já perdi até a vontade de tomar o café.
É que de tardezinha parece que as coisas adquirem um contorno cobreado com a cara do paraíso. Ou do inferno. Tanto faz, por onde for melhor de transitar.
Hoje reconheço este espanto. Essa mesma cara, acusando este mesma hora. Não foi nem um, nem dois dias. Eu enxergava a filha do Nivaldo vindo caminhando, lá da fábrica, com um jeito esquisito. Meio mole. Com cara de quem está ardendo em febre.
Em muitos dias, puxei a cortina cheia de razão. Evitando até um aceno. De problemas já bastam os meus.
Mas teve um dia em que eu aguava a nespereira e não ouve modo de não lhe cumprimentar, já que era por ali que ela cruzava pra chegar em casa. Ainda assim, fiz cara de quem tem ta com muita enxaqueca. Ela encostou os braços de leve na cerca dando sinal de que ia se demorar e disse qualquer coisa como eu prefiro a madeira bruta. Nesse momento deu um nó na mangueira, desses que impedem a água de atravessar. Eu tive que dar meia volta pra procurar a dobra. Fiz daquilo distração e fui logo emendando alguma frase que terminava seca em alguma coisa como não se faz mais mangueira como antigamente. Esses argumentos que a gente acha quando quer ganhar razão. Ela ficou ainda uns minutos e entrou sem dizer mais nada.
Amanheceu atordoado depois disso.
Acordei com tempo de avistar o carro fúnebre se afastando da casa do Nivaldo. Nem precisava saber mais nada. Já tocaram cedo dando nome pra desgraça. Pobre do Nivaldo. Com a despesa ainda toda pra pagar do casamento dela.
Eu sei que o Nivaldo vai ficar, feito o viúvo, fazendo questão de pagar pela bainha ainda não feita no vestido de noiva da filha. Como se assim estendesse a partida. Ele vai mudar até o jeito de cumprimentar a gente.
Eu bem que podia ter dado ouvido ao que a infeliz queria ter dito. Mas não dei. Já me consumi pensando no que podia ser e não consigo fazer nenhuma associação que me traga alívio.
Deus que me perdoe, mas se ela ia se matar, podia me ter vindo com outra conversa. O que posso fazer é deixar entrar a segunda semana e levar umas roscas de polvilho ainda quentes pro Nivaldo. Pra ir despertando apetite.
Não sou boa de puxar prosa em véspera de festa, quanto mais depois do enterro. Jamais vou dar um pio sobre a conversa que eu não tive com ela. Prefiro quando é assim. Se bem que desde aquele dia ando me sentindo muito mais ridícula.
Dia após dia, encho a casa de motivo. Já gastei meio caderno de receita tentando escrever um poema. Eu que nunca fui disso, fiquei gamada numa coisa que batizei de poema questionamento. Não sei qual outro nome poderia ter, mas o certo é que é uma coisa sem fim, porque o diacho das novas perguntas já recomeçam na hora de enfileirar as dúvidas.
Mas uma coisa é certa, gostar de madeira bruta não tem nada a ver com a proximidade do casamento. Senão a danada teria dito alguma coisa que lembrasse grinalda.
Nem preciso me olhar no espelho para saber que agora estou com a mesma cara dela lá na cerca. Com este amarelo de quem quer muita resposta. Só que agora as certezas me custam como nunca.
Por não dar ouvido (?) me sinto condenada à morte. Ou foi que nasci assim e só agora me afetou a condição? De um jeito ou de outro, não vejo outra alternativa: vou cortar a nespereira e abrir uma tenda. Uma questão de ser bruxa?

Jogo de cena

Pouco tempo, ou como é ruim contar, pouca inspiração para a literatura quase despretensiosa do mundo das ervilhas. Por isso, vou contando o que me acontece, até o que vem por acaso como este belíssimo filme de falas que assisti quase sem querer no final de semana.



Pra quem ainda não viu, fica a dica: Jogo de Cena - Eduardo Coutinho

Domingo, Setembro 06, 2009

Belo Horizonte, 30 de Dezembro de 1942

“… Esta terra aqui é desgraçada, Mário. Ou o sujeito foge daqui (como fez o Carlos Drummond e recentemente o Oswaldo Alves), ou se perde mesmo. È o caminho de todos nós se aqui ficamos: casar, ter filhos, criar galinhas, um bom emprego, condição social – e literatura mesmo… horas vagas! É o cúmulo. E lá vou eu, Mário, lá vou eu. Nem queira saber que drama tem sido isso para mim. Estarei indo pelo mesmo caminho? Será que conseguirei reagir a tempo, ou me agüentar a-pesar de tudo? Estarei sujeito a ser artista nas horas vagas, por diletantismo? Isso para mim será pior do que a morte. Mas então é preciso mesmo mandar tudo à merda e tocar pra frente, romper com tudo e todos, abandonar tudo e todos, fugir daqui para poder se agüentar? Sinto perfeitamente que se continuar com o corpo mole acabarei pior do que eles, Mário. E isso não pode, não pode acontecer de maneira nenhuma. Coragem eu tenho, se for necessário…”
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Correspondência de Fernando Sabino a Mario de Andrade, retirado do livro “Cartas a um jovem escritor e suas respostas”.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Da rotina

A gente corre. Corre. Corre mais um pouco. E às vezes, chega num lugar onde gostaria de estar. Onde é bom que se faça uma pausa. Onde é satisfatório contemplar. Não raro, nem exatamente, nem sempre. Simplesmente, às vezes. Mas sempre porque foi merecido chegar.
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"Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar."
Herberto Helder

Domingo, Agosto 30, 2009


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"é como encontrar esperança
em uma velha canção folk
que você nunca tinha ouvido"

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Um post para Celina





Escrever a primeira redação é como aprender a andar de bicicleta, a gente não consegue pensar em outra coisa. Nunca esqueci a emoção de aprender as sílabas para formar as palavras e depois juntar as palavras para ver nascer uma história. É quase uma benção. Deve ser por isso que lembro como se fosse ontem da minha primeira redação.
Eu tinha sete anos e a minha professora se chamava Lídia. Ela era uma mulher bonita, mesmo que não desse para comparar com a professora de ballet que era tão linda que nem parecia ser de verdade.
A Dona Lídia, como ninguém ousava chamar diferente, era dessas professoras que mantém a sala em silêncio. Nas aulas dela ninguém trocava bilhetinho ou pedia para fazer xixi toda hora. Os cabelos da Dona Lídia eram presos com grampos que a gente não encontrava pra comprar no bazar da Waltraud. Também lembro que ela sempre tinha os lábios pintados com um batom cor de vinho. Acho que a boca dela permanecia daquela cor mesmo depois de escovar os dentes.
Além de severa, era muito asseada. O seu asseio constrangia muito a Catarina, que de vez em quando levava bilhete pra casa com suspeita de estar com piolho. Eu não gostava do jeito como a Dona Lídia escrevia os bilhetes pros pais da Catarina porque ela deixava bem evidente que a Catarina era piolhenta. Por causa disso, os meninos sempre a chamavam assim na hora do recreio.
Também não gostava quando a Dona Lídia dizia: hoje vamos estudar matemática. Mas quando ela dizia que a tarefa de casa era formar uma frase, eu ficava bem faceira.
Mesmo que a gente formasse frase dia sim, dia não, sempre era uma sensação diferente. Às vezes queria dizer uma coisa e não sabia como escrever a palavra, às vezes queria me exibir com uma palavra nova e não conseguia colocar ela em nenhuma frase. Daí era mais frustrante. Mas quando conseguia por a palavra certa na frase que eu queria nem dava para disfarçar o contentamento.
No dia em que a Dona Lídia parou bem na frente do quadro negro e avisou que iríamos fazer uma redação eu fiquei muito nervosa. Tratei de pegar uma folha em branco e começar a escrever lá na primeira linha, que era onde eu achava que as coisas mais legais deveriam ser colocadas. A redação ocupou meia folha do caderno. Quase não dava para acreditar naquilo. A menina da minha história se chamava Celina. Além de eu achar o nome bonito, não conhecia nenhuma Celina. Aliás, nunca conheci. Eu voltava para casa caminhando, porque morava perto do colégio. Naquele dia, percorri todo o caminho pensando na minha história. Realmente não tinha nenhuma Celina em Agrolândia. O que me fazia acreditar que ela poderia ser bem diferente de todas as garotas que eu conhecia. E era maravilhoso imaginar como a Celina seria se ela fosse de verdade.
A Dona Lídia não usa mais os cabelos bem presos, mas eu ainda penso que depois das vogais e das consoantes a gente ganha o mundo.
(mesmo que hoje o meu encantamento seja pelas entrelinhas).

Terça-feira, Agosto 25, 2009

Cuca de banana

Ao contrário de você, fui comer um pão de batata. Queria uma coisa com sustância. Umedecer bem o pão com a saliva enquanto o catupiry vai chegando na língua. Enquanto eu mordia o pão de batata e sentia um prazer despudorado fiquei pensando na tua confissão. Nada melhor do que uma cena bem pitoresca em lugar sério como o teu trabalho. Na tua maldição. Como você próprio reconhece, maldita educação esta que te faz comprar diariamente um pedaço de cuca de banana, sem gostar de cuca de banana, apenas para ajudar a faxineira.
Quer dizer que você embrulha a cuca em duas folhas de papel ofício e a esconde dentro da pasta para conseguir jogá-la fora apenas no final do dia quando pisa em casa? Isso todo santo dia?
Eu imagino como isso deve ter começado. A faxineira muito franzina, muito asseada e solícita oferecendo um lanche. Deve ter parecido coisa corriqueira e você um pouco distraído já foi logo sacando uns três reais da carteira.
Não tenho diplomacia o suficiente para cavar motivos, mas vai saber por que diabos você foi ficar refém desta conduta, agora, benza deus, diária.
Com que direito a faxineira traz para vender um pedaço de cuca todos os dias? Com que educação você não abre a boca? Eu ia dizer nem para comer o lanchinho, mas não é tempo de crueldade.
Eu me divirto é no teu improviso. Você deve esbanjar equilíbrio para se desfazer da cuca sem ninguém perceber. Digo ninguém querendo dizer, principalmente sem a faxineira perceber que a cuca vai para o lixo.
E nesta hora eu reconheço que o lixo deve ser o de casa e não o do trabalho, local em que o pedaço abandonado seria facilmente notado. Me desculpe a sinceridade descompromissada, mas é só neste gesto de esconder a cuca que eu reparo alguma gentileza. Seria mesmo constrangedor se ela descobrisse que você nunca comeu uma migalha sequer.
É como se a cortina abrisse quando a faxineira dá as costas. A cuca de banana sendo colocada em cima da mesa. Certamente atrapalhando o caminho dos dedos até o teclado. Rebocando o porta-retrato. Sujando o fio do telefone. A faxineira entrando e saindo da sala sem nunca dar aviso de si. E a cuca permanecendo em cima da mesa. Imperial. Nada invisível.
Numa investidura corajosa, você precisa embrulhar a cuca pra livrar a pasta da gordura. Pode ser nervosa se não quiser que ninguém repare. Pode ser tranqüila se mentir para os colegas que vai comer em casa. Mas, é evidente que esse comer em casa não cai bem aos ouvidos da faxineira confeiteira. Por isso vem o suor frio de encontrar o momento certo para fazer o arremesso. Num empurrão ligeiro a cuca se estrebucha no fundo da pasta. Por esperteza tua, se estrebucha protegida pelo embrulho. Uma expressão de alívio deve iluminar a tua cara.
Me lasco de rir quando te imagino, às escondidas, acomodando a cuca ao lado do celular enquanto revira a pasta em busca de um papel. A tua cara ao chegar em casa e antes mesmo de se atirar no sofá ter o compromisso de jogar a cuca fora para não correr o risco de vê-la azedar na pasta. E saber, como não é bom que seja, que amanhã é outro dia.
E isso tudo para ser educado?
Somos patéticos tentando esconder o que quer que seja. Mas, cada educado - como você auto se intitula - que se vire com o seu próprio lixo.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Tentativa

Escrever sobre o que excita e não apenas sobre o que sensibiliza.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Da vida que a gente acredita e por isso escolhe

Acabo de chegar do primeiro dia da Oficina de Terapia da Literatura. Uma alegria vai tomando conta da pessoa... Embora ainda esteja um pouco tonta desta proeza danada que se estabelece quando a gente inventa uma coragem para se expor.
Pois bem, a tarefa para a próxima aula é levar um texto que ainda não tenha sido publicado. Então, fuçando em algumas coisas escritas (e mal organizadas), encontrei este poste antigo. Eu tive que ler e reler. Não porque encontre nele alguma aventura da literatura que me faça querer levá-lo como um troféu. Bem pelo contrário.
Mas encontrei aqui, sentimentos escritos com uma sinceridade que me impressiona.
Se quiserem se aventurar, fiquem à vontade, já que este blog se presta a qualquer coisa que se parece mesmo com um diário ...

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Enquanto lê Adélia, a lasanha, que espera na geladeira para ser almoçada, pode criar mofo - do grosso. Um dia ainda vai ter com ela, lá em Minas.
É que tudo se resume ao que Adélia disse. Tem cabimento impressionante. Ela e William também estão precisando de férias. Ainda não se perguntam quem tirou de não sei onde a chave de não sei o quê, porque ele é organizado e ela entra num fingimento enorme de também sê-lo. Entendem-se, por exemplo, com as correspondências novas no balcão da cozinha e as contas para pagar suspensas no balcão do escritório/estúdio/quarto da Lola. Ou com roupas que tiram do varal e apóiam no sofá da sala para depois passar para o móvel do quarto, antes de ir para o guarda-roupa. São pequenas desorganizações que funcionam.
O resumo é que as férias são merecidas. O enigma é que parece não chegar nunca o dia de ir embora folgar. É que ainda de manhã ela espera não fazer comida à noite. Quer comer pronto. Mas o que falta são férias, não prontidão. Cozinhar é coisa que lhe apraz. Põe cheiro verde, Eloisinha, para incrementar. Queria plantar cebolinha e salsa no pátio pra fazer par com o vaso de manjericão. Ainda sonha com um peixinho na sala. E alguma parede lilás no quarto de dormir.
Mas quem compra um peixe quando já acorda com um pensamento claro de não ter ânimo para preparar o jantar? Sim, ela está a pique de um estúpido enguiço.
Depois que passar janeiro, outros livros virão à prateleira, e com eles e um punhado mais de sorte, a criatividade vai lhe alcançar no estômago. Fundo. Irão escrever. Juntos? Serão coisas bonitas de céu azul e vestidos rendados e outras de sacanagens bem feitas e bem ditas. E lhe dará um gosto enorme ver a ilustração de tais histórias rabiscadas por ele.
(fim)

Domingo, Agosto 16, 2009



Sexta-feira, Agosto 14, 2009

do tempo que as coisas tem...

Este não é o momento de provar os melhores vinhos, mas de saber como se prepara o solo para colher as uvas mais saborosas.

das coisas que a gente sabe que sabe

Quando se reconhece o espaço entre eu e o outro. Entre um e outro.
E sabe-se que neste espaço, legitimamente curto, (a ponto de sentir o hálito ainda quente)existe um universo.
Existe um u-ni-ver-so.
É deste universo que eu falo. É deste espaço. É deste hálito.
É nele que pesa a falta.
Há de se esquecer deste lance de pele.
Há de se concentrar no infinito deste espaço curto.

Terça-feira, Agosto 11, 2009

Queremos dar de ombros. E damos. Com os dois.

Não é tendência, esse arroto insosso. Queremos o que der na telha. Sem nenhum infortúnio de má interpretação. Celebrar o lugar comum. A nossa amizade, que independe da expansão das redes sociais. Não julgamos excessivamente ruim quando a melhor foto vai para o orkut. Isso já é discurso desbotado.
Nestas ocasiões raras em que deixamos que a vida lave as rugas dos últimos anos é muito bom saber que as coisas trocam de lugar. É bom ouvir que o Theo gosta de grudar-se às coxas do pai enquanto toma o seu banho. Ainda assim, não tocamos em palavras sagradas.
Agora, a gente só quer esquecer que daqui a pouco é domingo de noite. Mas quando é preciso levantar a mão para conquistar uma vaga, concordamos que é preciso ficar mais um pouco. Desfiar bem esse rosário.
Talvez a gente precise mesmo combinar aquela ida à Itapuã. Rasgar um dia comendo churrasco. A gente escolhe, sem se demorar na fila das prioridades, as palavras que combinam com os nossos próprios dentes (agora muito brancos por causa do listerine comprado no Zaffari no intervalo do almoço).
Não cruzamos as pernas só para chamar a atenção dos moços. Nem nos enrolamos em mantas para sacudir a atenção dos desavisados. Neste momento, nosso desejo mais genuíno é de que a massa da torta de amora não esteja com gosto de ontem. Nada de olheiras.
Queremos a coisa bem desejada. Ouvir o som do Mário nas sextas-feiras (enquanto o Féu confidencia alguns impropérios sobre o seu signo ascendente). Saber que o sapato de uma foi uma boa troca com o casaco da outra. Ser mulherzinha.
Queremos falar sobre a novela das oito que começa às nove. Brincar um pouco com o deleite do improviso. Aproveitar a liquidação sabendo que amanhã ainda é sábado e dá pra passear no brique se tiver sol e que na primavera os passeios serão feitos de bicicleta.
A gente quer se lambuzar bastante apenas celebrando a vida. Torcendo o nariz para o que parece. Pois que cada um providencie a comida conforme a sua fome.
Queremos pão sem manteiga. Sem muita necessidade de voltar. Nem de pisar fundo.
Apenas, quando entendemos que a vida é curta, ir ter com os bons. Ali no cotidiano que nos benze de novas possibilidades e nos engorda com tanta rotina.

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

"Os componentes da banda"

Se existe mulher que escreve e que eu gosto, é esta. Pode falar do que quiser... de mamão maduro a moço feito limão novo...
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"O menino da vizinha dos fundos, trepado no muro como ele vive, deve ter investigado bem o meu quintal, porque hoje me gritou: "do-o-na, do-o-na, a mãe falou se a senhora quer vender umas panelas pra ela." Me desgostou muito a forma de pedir, o pedido em si. Com tanto vizinho, porque Dona Alvina foi enxergar logo as minhas panelas? A distância entre a casa dela e a minha é a mesma entre a casa dela e a do Osmar Rico. É claro que percebeu minha fraqueza. Não posso esconder, está na minha cara a atração que exercem sobre mim. São como diamantes no cascalho. Pobres, eu os farejo, pressinto, me ofereço a eles como manjar. As panelas, se estavam no barracão é porque estavam mesmo sobrando. O que não me falta é panela. Por que então não fui capaz de pegar a melhor delas e dar para Dona Alvina com o coração exultante de poder ajudar? De jeito nenhum. Primeiro disse ao menino, contrariada: as panelas não são de vender não. Fiquei com raiva dela falar em comprar, já sabendo que eu não ia vender. Logo me arrependi, chamei o menino de volta e peguei a melhor panela, mas não pense que mandei a tampa junto. Achei-a boa demais, servia pra tampar o caldeirão onde gosto de cozinhar batatas. Dei a panela pura. Foi uma bondade boba, pela metade, sem nenhum valor. Não descansei enquanto não inventei um meio de visitar Dona Alvina. Com um mês só na casa velha, toda escorada, que o dono do curtume deu para ela morar, já fez horta, jardim, os cacarecos são limpíssimos. A menina pequetita, paninho na cabeça, brinquinho de ouro na orelha desensebada. Fui com desculpa de comprar cebolinha e fiquei sabendo: ela faz faxina nas casas, o marido trabalha fora e só vem fim de semana, eles não são daqui não. Muito bem, pois saí sem ter coragem de dizer a ela a única coisa que meu coração pedia que dissesse: olha, Dona Alvina, somos vizinhas e a senhora pode contar comigo no que precisar, estou à sua disposição. Isto falei toda emproada pra Dona Leonor, pra Dona Ester, porque no fundo sabia, são destas vizinhas que pedindo um dente de alho pagam logo com uma réstia de cebolas, enfim, me serviriam quando eu precisasse sem me dar amolação. Dona Alvina é diferente, porque é precisada mesmo. Se me pedir cinqüenta cruzeiros vai demorar um ano pra pagar. Qual é o dinheiro que entra lá que seus quatro crioulinhos não consomem num átimo? E ela deve pensar assim: "Dona Violeta é rica, pode muito bem esperar." Posso mesmo. Por que então, meu Deus, não sei ajudar a Alvina? Empresto o dinheiro, passam nem duas semanas fico dizendo: ao menos satisfação eu merecia; não é por causa do dinheiro. E outras bobagens mais que todo mundo fala nestas situações. O fato é que estou chateada com a mudança deles pra cá. Antes era Dona Terezinha que, bem ou mal, eu vivia acudindo. Passou mais de ano sem morador na casa, um verdadeiro descanso. Agora envém Dona Alvina que, sem saber, é um ferrão na mão de Deus. Não chupo mais uma bala sem pagar um dízimo de tristeza. Claro que está tudo errado, qualquer sacristão bobo sabe disso, menos eu que não atino com a forma de gozar dos frutos da terra, criados por Deus para todos comerem em perfeita alegria, eu inclusive. Demoraram um dia só para descobrir minha mangueira de cinqüenta metros: "do-o-na, a mãe falou se pode emprestar a mangueira pra nós aguar a horta?" Este batido durou um mês. Pedro até botou um trapo no muro pra não esfolar a borracha. Depois foi ficando chato. Queria lavar o carro, aguar nossa horta mais cedo, a mangueira com Dona Alvina. Bibia falava: "mãe, que povo folgado, vai ser descansado assim! Acho a senhora e o pai muito bobos." Não podia aplaudir a menina, mas por seguro matutamos: a voz das crianças é a voz de Deus. De noite Pedro bateu na casa da Alvina para bispar a situação. Se pudesse, falou o marido, mandava ligar a água, mas onde vou arranjar dinheiro? Pedro foi na Companhia, pagou a taxa, acabou a questão da mangueira. Nem assim sosseguei: será que foi correto? Não teria sido mais edificante emprestar a mangueira com paciência até eles arranjarem modo de pagar a taxa? Vejo o marido da Alvina passar aos sábados com umas mexericas que ele arranjou pra vender e penso: nem pra dar uma satisfação, um sinal. Pedro nem se lembra mais. É diferente de mim, nunca dá meia panela. Por isso a alegria dele é inteira".
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Adélia Prado.

Porque a minúcia (que às vezes arde) é proporcional ao carinho


Mais aqui.
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Quando as pessoas querem ouvir o óbvio, elas nos pedem. Quando não temos muito zelo, dizemos.

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Pára tudo que eu preciso tomar um gole d´água!

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

das lembranças



Acabo de encontrar uma caixa antiga. Nela se escondem guardados de mais de dez anos. E entre as tantas recordações adormecidas, encontrei este escrito, que recebi de um amigo que enche a casa de um suspiro doce de saudade. Um destes raros amigos que a gente não esquece apesar da distância dos quilômetros.
Lembro dele, enquanto tomando chá adoçado com açúcar mascavo, discutíamos os rumos do jornalismo e por que não, da vida. A gente tinha uma sede danada...
Vou postar a carta aqui, como quem enche um vaso de flores.

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“A minha culpa é pouca se molha a chaminé, sabe? A mãe enfia um elástico no calção, pronto. Tá bom. A aguinha escorre por baixo da janela, e fica-se tranqüilo, passageiramente demorado. A meia, na gaveta, uma esperança. Carminha, calminha, calminha, de alguma coisinha bem boa poder acontecer logo, logo. São tipinhos, manias de quase nada. Que pouco influenciam na tua vida, ou ali na Argentina, ali na Riachuelo, ali no teu armarinho do banheiro. Mas estão ali, tu bem sabe, no centro do nó; no meinho dele como um gomo, sumo de uma coisa que nós vamos parir quase a vida (essa tua amiga) inteira. E provavelmente quase nunca vamos enxergar. Dizer que sentiremos é romântico demais pra setembro. Anacrônico pro jornalismo e pra semana. Eu só ia dizer que tenho pensado nisso. E me grudado como uma rapa de negrinho na
colher pra passar despercebido, ser o último a ir pra boca, mas ter alguma mínima certeza de que a saliva terá pequenos segundos de um certo prazer que nem eu sei qual é. Tem coisas demais pra saber, Eloisa”.

Hotel Santa Clara


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Um dos caras da banda, desculpem o jabá, é meu amigo e manda muito bem.
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"Quanto à música, depois de ser tocada, para onde ela vai? Música só tem de concreto o instrumento. Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical."

Domingo, Julho 26, 2009

Escutando o silêncio?




Pouco importa se você vai perceber que o filme faz parte da “Nouvelle Vague”, que nele se identifica uma influência marcante de “Nouveau Roman”. Se eu pensasse nisto, nem teria assistido. Foi indicação de Sara. E como confio nas indicações asiáticas de Sara, desde o biombo até a sétima arte, assisti (ainda que a minha preguiça e distração me impeçam de morrer de amor por filme em p&b). Mas ontem, porque o frio exigia-me silêncio e casa quentinha e porque eu escolhia uma surpresa na tela como companhia, Hiroshima Mon Amour teve mais sabor do que chocolate quente. E mais calor do que tantas outras possibilidades de emocionar (e viver).
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Se você ainda não assistiu, segue a dica (acho que é filme para assistir no inverno, com luz apagada e com uma bebida bem quente). Talvez o cenário ideal para mergulhar nas lembranças como ponto de partida para o esquecimento...
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- Tu não viste nada em Hiroshima. Nada.
- Vi tudo. Tudo.

Sábado, Julho 25, 2009

Geada e poesia


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"Era um homem e detestava se ver de ceroulas. Ela era Maria, e cada mancha na sua ceroula, cada botão e cada fio, cada odor e cada toque, faziam os bicos dos seios dela doerem com um júbilo que vinha do meio da terra. Estavam casados há quinze anos e ele tinha uma língua e falava bem e freqüentemente disso e daquilo, mas raramente havia chegado a dizer eu te amo. Ela era sua mulher e falava raramente, mas o cansava com seus constantes eu te amo" ("Espere a Primavera, Bandini" pag.14)

Sexta-feira, Julho 24, 2009

Programinha de domingo...

Fome...


Ilustração daqui.
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É o frio quem corre, com os pés gelados, pelos ombros do moço de bigode? Antes de esquentar bem as mãos no bolso da jaqueta ele atravessa a pista de modo certeiro e se aproxima dela como quem traz uma mensagem.
Este moço queria muito que ela soubesse que ele folheará, em breve, o livro que ela o indicou há alguns dias. Foi por isso que, embora de passagem, ele disse: precisei encomendar, mas deve chegar nesta semana! Ela retribuiu a confissão com um sorriso caloroso, chegando a inclinar de leve a cabeça, numa tentativa de não demonstrar surpresa com a revelação quente daquele improviso.
Seria tão bonito se ela pudesse contar este episódio emendando alguma coisa como “um vento brincalhão bagunçava os sentidos dela e o cabelo dele”. Mas o fato é que depois disto ele seguiu em frente. Sem deixar nenhuma pista. Ela tampouco se mexeu. Como se imóvel estivesse aceitando um destino traiçoeiro.
Mas, ainda assim, consegue aliviar a tensão do rosto quando lembra do modo da confissão. Uma espécie de segredo de marshmallow.
A esta altura, o livro já deve ter chegado. Se ela pudesse, lhe escreveria um bilhete:

“Moço, gostaria de observar a sua expressão enquanto desembrulha o pacote do livro. Comer contigo um pouco desta ansiedade. Seria tão bom saber como foi o exato momento em que você fez a primeira pausa na leitura. Não me interessa o motivo da pausa, mas a minúcia de como ela aconteceu. Por acaso você descansou o livro sobre as pernas para tomar um gole de água bem grande? Também tenho vontade de saber se você achou inusitado ou ficou com sono ao descobrir que o personagem principal atravessa de moto as planícies americanas e que leva na garupa o seu filho...”

Talvez ela se despedisse com um beijo. Talvez não. Ele provavelmente não teria qualquer paciência com a expectativa do bilhete. Esta quase certeza aumenta nela a vontade de escrever-lhe.
Mas afora isso não lhe sobra alternativa que não seja a de confessar que o incomodo de não saber sobre o moço e seu novo livro é semelhante ao de estar com fome ...

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Feito com carinho, estilo e bom gosto!



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Gostou?
Tem mais aqui.
Lava bem o rosto e a nuca. (e me desculpa)

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Quinta-feira, Julho 16, 2009

"O cara" do meu prédio

É tão bacana descobrir algo positivo e inusitado nas pessoas. Tive esse lampejo de admiração quando folhei o Fala Bom Fim (sou moradora nova). Com o título, ‘Velocidade é a alma de Carlos Guerreiro’, na seção Zelador do Mês, encontrei uma matéria feita com o zelador do meu prédio. Acabei descobrindo que ele é um velocista aposentado e ex-atleta do Grêmio, e que inclusive já conquistou medalhas de ouro e prata no Campeonato Brasileiro de Atletismo.
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Quarta-feira, Julho 15, 2009

Os gadget's e o túnel do tempo

Pra início de conversa, adoro pronunciar a palavra gadget. Sei lá porque, mas o fato é que acho ela "deveras" bacana de ser dita. Digo isso porque agora a pouco adicionei um gaddddddddget ao blog que permite pesquisar qualquer palavra. Fiquei brincando um tempo com este novo recurso/aplicativo/possibilidade/gadddget digitando algumas palavras. Matei um pouco de saudade da Adélia Prado lendo alguns poemas dela. Brinquei de digitar as mais absurdas e digitei um punhado de outras mais. E numa dessas buscas, encontrei esse post (ok, a palavra era sangue).
Primeiro: escrevo muito sobre menstruação por aqui.
Segundo: quis/comecei a escrever esse post num banheiro de bar do Menino Deus. Juro!
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Arcada de fogo?
(não irá desculpar-se pela demora)
o que realmente tocou o coração dela, como se mistura de clara em neve fosse, foi a demonstração de notável aptidão - dele.
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Mas outras coisas andaram acontecendo na capital dos gaúchos:
Raul estava raso, largo e profundo. Ela sentia um vermelho de alívio escorrendo pelas pernas. A calcinha tigresa confundia-se com a cor do esmalte. Era véspera de feriado e por isso não carecia pressa. Não queria fazer-se ouvir, mas um riso escapou desafinado quando percebeu que em tons nem sempre audíveis, vive a se repetir, tanto na escrita, quanto na vida. É sempre a mesma mesmice de uma única Eloisinha chatinha e previsivelzinha. Por isso, é bem provável que ela discorra sobre a sensação cíclica que o sangue lhe atribui.
A censura áspera lhe veio silenciosa e desembaraçada deixando aquele banheiro mais insólito do que já era. Por ter-se reconhecido previsível, num cubículo totalmente estranho, sentiu-se embebedar por uma sensação de cócegas e pôde reconhecer até mesmo nas coisas insossas de todos os dias que os ciclos se renovam, para, só mais tarde, viciarem-se de novo. Se tivesse um copo ao alcance das mãos, brindaria a dicção espirituosa da constatação.
Mas um falatório perturbou a reflexão imagética. A visão, protegida pelo grosso aro vermelho, confundiu-a com as cinco lajotas que a distanciavam da porta. Atrás, poderia ter encontrado algum olhar de desaprovação ou curiosidade se tudo não fluísse quase que naturalmente. Deixou-se absorver pela tentativa dos pássaros em avisar que a sexta-feira não tardaria. Em breve, alguma invasão ensolarada iria atravessar as vidraças da Getúlio.
Sem pedir licença, embrulhou a paz de espírito no seu casaco de bolinha, deu a mão para o menino e seguiu o seu caminho.
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Tudo parecia repetição.
Era só mais um modo de ver.
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Quando elas choram, Isadora e Isaura, meu desejo mais sincero e solidário é dar a mão às duas, passear um pouco por estradas estreitas, perdidas no tempo, e confessar uma dor qualquer minha, que seja bem secreta, bem dor, e possa consolá-las. Assim, por exemplo: "Era uma vez eu tive um dia... Um dia que começou e terminou com dor. De manhã, uma cólica forte, vinda do nada, que minutos depois se expressou no resultado do nada que é a menstruação. No fim da tarde, uma carta ruim, que expressava também uma rejeição, só que de outro caráter. Agora é de noite. As dores, unidas, vão dormir".
O Espelho da Falha — Marilene Felinto

Cumprindo a promessa...

Plantão. Você Sabia?
Por um dente de alho cru na boca, levemente ferido, desobstrui as vias respiratórias.
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Plantão. Você Sabia?
A tenia, um verme que pode viver no sistema digestivo humano, pode atingir quase 23 metros de comprimento.
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Plantão. Você Sabia?
São necessários 8 minutos e 17 segundos para a luz viajar da superfície do sol até a terra.
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Jesuuuuuuuuuuus, me abane!

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Gosto é regalo da vida




Preciso levar o lixo. Fazer a lista do super. Colocar as contas que devem ser pagas na bolsa. Jantar. Tomar banho. E dormir que logo já é terça-feira. Mas sinto vontade de escrever. E então eu pego a sacola do lixo e faço um nó bem forte (pensando vagamente que eu não tenho muita serventia para a reciclagem, embora me esforce). Descanso o lixo perto do tanque e dou uns passos na tentativa de pensar que o computador está desligado e é melhor deixar para escrever outra hora, talvez mais oportuna. Então lembro que preciso comprar leite e absorvente e que também seria útil fazer logo um estoque de fósforos. Ao entrar na cozinha, para encompridar a lista, tenho a sensação de que as frutas estão muito maduras (no meu caso, descarto muita maciez quando se trata de frutas). Mas, mesmo que o sabão em pó também esteja no fim, que o coração pareça estar batendo mais devagar (tenho essa sensação sempre que sinto muito sono), que a louça esteja por lavar, que a pilha de jornais esteja competindo em altura com a banqueta da sala, que a mesa se apresse em convite, ainda sinto vontade de escrever. E por isso, quase como quem diz para uma criança ‘tudo bem, só vou brincar mais uma vez’, abro uma página em branco. Seleciono a fonte georgia, corpo 12, justificado. É assim que me sinto no espaço que eu respeito. Pequenas manias. Então lembro que já quis ter uma filha e dar-lhe o nome de Geórgia, ou Nina, mas que hoje prefiro Martina, ou Nina. Sei que a escolha da fonte não tem nada a ver com o nome. E me esqueço um pouco da vontade, aquela. Acho bonito começar ao estilo genuíno, porém ingênuo (coisinha difícil de desgrudar de mim esta tal ingenuidade). Lasco qualquer emoção dizendo que sinto vontade de escrever sabendo que o tempo lá fora quase parou de tanto frio, de tanto que choveu na semana passada. E penso que isso é ideia da Adélia. Ela falava em alguma poesia - que eu não lembro qual – que o tempo havia parado de calor. Ou teria sido Drummond? Gosto tanto de Drummond para lê-lo tão pouco. E gosto também de Cabral de Melo Neto (respondendo a pergunta do André). Fico aflita, dessa coisa boa da aflição, em lembrar que nestes dias encontrei no e-mail a monografia e que nela cabia tanta promessa de João do Rio (já sei o que posso fazer amanhã se a aflição não calar). Embora seja muito distraída, sei que a vontade de escrever ainda não deu trégua. Ela comicha. Acho que é a primeira vez que escrevo a palavra comicha e isso me faz pensar que talvez ela nem exista. Não vou procurar no dicionário. Não me presto a esta agilidade. Mas se essa palavra não existe, bem que deveria. Seria tão bom conseguir disfarçar essa vontade de escrever demorando-se na sensação das boas coisas que me aconteceram hoje. Procurando o filme que a Débora me emprestou e que está perdido entre os recados na gaveta ou fazendo uma sopa bem verde de tanta erva fresca (Ui. Erva fresca e segunda-feira rimam. Rima é coisa que em definitivo não me agrada). A zica (essa aí não existe mesmo, nem preciso conferir) de escrever quase passa quando eu lembro que tenho vontade de fazer algumas buscas (longa pausa, estou bolando um plano secreto). Mas sei que sinto vontade de escrever e que sentindo não escrevo nada. Apenas vou me distraindo, fingindo numa dancinha ritmada que posso continuar falando comigo mesma (em público) até a vontade ir embora. Uma compulsão consentida? A gente brinca de se enganar às vezes. Mesmo que todas as tentativas evidenciem que tudo está ali, sobre a mesa, em forma de banquete. Putz. Acho que essa é a frase que eu precisava! Já volto (?). Vou escrever uma crônica.

Você sabia?

Faz certo tempo e é claro que eu não sei como começou (e também não tenho dinamismo? para investigar), mas o fato é que eu recebo várias mensagens no celular (ao estilo você sabia) que me deixam, talvez, intrigada.
Pois a partir de hoje (sem seleção ou sorte de nenhum critério de edição) elas serão postadas no mundo das ervilhas.
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Plantão. Você sabia? O imperador francês Napoleão Bonaparte tinha fobia de gatos.
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Plantão. Você sabia? O gafanhoto do deserto é o inseto que voa mais rápido, atingindo 33km por hora.
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Plantão. Você sabia? O pai de Aretha Franklin era amigo do líder muito conhecido Marthin Luther King.
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Não dá pra não dividir essa gambiarra louca com vocês. Mas é claro, fica registrado o pedido de desculpas...
Aguardem os próximos plantões. Eles virão.

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Salve, Adélia!

Sábado, Junho 20, 2009

Fazer 30 anos

Porque o dia 4 tá chegando, e porque a conta é exatamente esta, mas muito mais porque esse escrito do Affonso Romano de Sant'Anna é lindo.
(e porque lendo assim, quem sabe, eu ainda não precise me incomodar com o renew rejuvenate... pensando bem ainda estou com 28... )
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QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.

Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.

Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.

Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.

Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.

Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.

Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.

Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.

Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar. -