Tu (porque nove anos nos pampas modificam até a entonação da voz) me desculpa pelas intensas alterações de humor, tá?! Exatamente como esta pergunta sugere, eu ia escrever uma carta para uma confidente que vive além da fronteira. Mas resolvi escrever para mim mesma, num desejo de ser o mais sincera possível. E, por isso, não me importando bulhufas com os recursos da linguagem (tá, me importando só um pouquinho, mas não deixando que eles se enfiassem no meio dos sentimentos e atrapalhassem meu objetivo). Estou um pouco acima do peso, mas concentrada, e muito, nas minhas próprias impressões, que bem sei, são respostas de quando estive distraída.
A vontade de escrever a carta aconteceu depois do filme que eu estava assistindo, há pouco (quando na verdade deveria estar trabalhando). Um filme com um propósito de fazer chorar. E como tudo que tem um propósito muito declarado de emocionar, não emocionou. Mas, salvo pela belíssima trilha sonora e fotografia, assisti até o fim. O cara do filme renunciava a tudo para tentar se descobrir e era patético demais e toda a papagaiada serviu para reforçar a certeza de que a sabedoria está na gente e para encontrá-la, basta estarmos vivos. Sabe, sem muita cerimônia de querer descobrir a coisa fora. É por isso, talvez, que se diz por aí que, no fundo, a gente sempre sabe. Sempre sabe o que fazer. Por onde ir. Sempre sabe quando começa. Sempre sabe quando termina. Sempre sabe a quem ama. Sempre sabe de quem desconfia.
E apesar disto temos dúvidas. Às pencas. Até porque não é uma sabedoria escancarada, destas previsíveis que os roteiristas não conseguiram se livrar. Mas uma coisa que toma força e rompe, floresce, transcende (e tantos outros adjetivos mais que vierem à sua cabeça para definir esta ação/descoberta). A sabedoria da gente vai ficando corajosa com o passar dos dias e vai se impondo. Pode demorar pra acontecer o milagre da revelação e enquanto isso, claro, a gente vai errando pra caramba.
Mas, como eu ia dizendo, e é corriqueiro que eu me perca em tempos de TPM e de troca de estação, o filme não me fez chorar, surpreendeu-me e leia-se, emocionou-me muito mais o encontro que tive nesta tarde.
Reencontrei um amigo que há muito não via. E foi porque decidimos nos encontrar depois de tanto tempo, que hoje, perto do meio-dia, fomos almoçar e comendo, conversamos muito. Da conversa ganhei uma geladeira emprestada para a casa nova e algumas belas e boas definições para a vida. Olhos cintilando de tantas verdades e de tanta alegria que invade quando a coisa é boa. Quando o encontro é generoso. Quando nos descobrimos mais um pouco. Quando esta descoberta é livre. Porque dor é bom bem de vez em quando, que seja dito. E assim, quando já tínhamos passado pra torta de amora (eu peço amora sempre querendo comer a de limão) nos descobrimos mais maduros, mas ainda sendo nós mesmos. Ele, como não poderia ser diferente, surpreendeu-me com os últimos passos, me pondo numa alegria visível. E uma coisa comparativa me invade e eu arrisco que ele é como a água que brota cristalina da fonte em alguma montanha perto de casa. Eu dou tanta volta pra dizer uma coisa, mas é pra deixar claro que ele é uma figura rara que traz conforto. E por conta disto, e porque tenho mais sorte do que juízo, vamos inventar um punhado mais de coisas juntos. Ele sempre me põe em marcha. E me sinto bem, sendo eu mesma, tirando um pouco os sapatos e caminhando pela rua, sem batom, sem maquiagem alguma.
Mas agora que eu preciso de concentração para escrever as besteiras que me pagam para que eu escreva, não consigo pensar em outra coisa que não seja aquele maldito pensamento que tive há pouco. Destes pensamentos baitolos. Por um momento, e isto pode ser um lance hormonal, desejei que os papéis que passei encaminhando na semana passada não fossem oficializados e materializados na entrega de uma chave.
Tenho alma de artista, embora trabalhe feito um peão de chão de fábrica. E ainda assim, não gosto de trabalhar sendo escrava do dinheiro. De repente pareceu-me que já encontrei o que vim buscar aqui. E deu vontade de pegar as mesmas duas malas e voltar (deixando um pouco da bagagem por estas bandas). Sou especialista em me desfazer das coisas que deveriam ser minhas (e acho que só me refiro a objetos mesmo).
Enfim, este pensamento desencadeou feito uma bomba na vontade de ver Pablo aprender a escrever seu próprio nome. No desejo ainda um pouco envergonhado de conhecer as novas feições da minha sobrinha que acabou de nascer. Na ternura de dar ouvidos à nova dieta de Cecília, a quem os bons resultados dos exames nunca caem bem. Na comovente e silenciosa companhia de meu pai. Numa visita à casa da minha avó, a quem a saúde pregou-lhe uma peça. Na infância carismática de João. Na ansiedade dos novos passos da Carla. Neste momento merecido da Cátia, a quem faz de tudo bom tempo! Na feliz descoberta de ver Cristina sendo mãe. Nas possibilidades da nova linguagem da Claudia. Na emoção de ver Lilian casar-se e Carol se ocupar com a doação.
Com a proximidade física. É disto que tenho sentido falta. Como se a fase da renúncia, e de certa forma, da rebeldia, tivessem chegado ao fim. E o que chega ao fim, esgota. Para entender isso não é preciso, sequer, mexer na sabedoria intrínseca.
Talvez eu tenha vivido aqui como uma cigana. Uma coisa Erondina de ser (e daí já fica bem difícil explicar, leia-se, uma pessoa muito livre das convenções). Por isso os passos feito uma gazela que se arrasta com a dificuldade de quem tem uma das asas mais curta do que a outra? Quem duvida é doido!
Depois que o sangue escorrer-me pelas pernas, talvez isso se transforme apenas em palavras para reflexão. Mas alguma coisa em mim, que apita igual a um forno quando avisa que a refeição está pronta, me diz que se era para aprender um ofício, sim, eu já aprendi.
Sobre a outra coisa que apita, eu não tenho capacidade para escrever, mas sim, eu já entendi. Mas sim, eu identifiquei no olhar da garota (coadjuvante) do filme quando ela sonhou um mundo inteiro em cinco minutos. Um sonho que não era o dela. Alguma coisa assim. Alguma coisa que tem a ver com aquele lance da gente sempre saber, no fundo, como as coisas são. Ou, é claro, como elas deveriam ser.